a cidade não caiu —
ela afundou devagar,
como quem esquece de respirar
e chama isso de rotina
os prédios ainda estavam de pé,
mas ocos
com luzes piscando como promessas vencidas
foi ali que eles se encontraram:
entre cabos expostos
e anúncios holográficos vendendo futuros parcelados
dois corpos jovens
carregando mais ruína que idade
— a gente pode ser mais que isso —
ele disse,
com a voz rachada de poeira e esperança
ela riu baixo,
não de deboche
mas de quem já tentou acreditar antes
mesmo assim, ficaram
aprenderam a remendar circuitos
como quem costura a própria pele
a negociar com sombras
a transformar resto em abrigo
e por um tempo,
foram quase invencíveis
até a cidade perceber
porque a cidade sempre percebe
veio na forma de convite
não de ameaça
nunca é ameaça
um trabalho limpo
um lugar alto
com vista pro que ainda brilhava
“só até se estabilizarem”
“só até terem controle”
mas controle é uma palavra que escorre fácil
ele aceitou primeiro
ela hesitou
— a gente não veio pra isso —
mas a fome não é só de comida
é de descanso
de silêncio
de não precisar lutar o tempo todo
e então ela também foi
e foram subindo
subindo
subindo
até não reconhecerem mais
o chão que juraram reconstruir


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