Hoje, em nossa era digital, não precisamos mais de fogueiras para queimar livros: a verdade é distorcida, apagada ou reinventada em escala global.

Na cabeça impassível, o capacete simbólico com o número 451 e, nos olhos, a chama laranja antecipando o que viria a seguir, ele acionou o acendedor e a casa saltou numa fogueira faminta que manchou de vermelho, amarelo e negro o céu do crepúsculo. – Ray Bradbury. Fahrenheit 451 (p. 14). Globo.

Fahrenheit 451, de François Truffaud (1966). Foi adaptado em 2018.

Em Fahrenheit 451, Ray Bradbury nos apresenta um mundo onde livros são queimados para suprimir o pensamento crítico e manter a população sob controle. A imagem do bombeiro Montag acionando o acendedor e reduzindo uma casa a cinzas é uma metáfora poderosa para a destruição do conhecimento e da verdade. Hoje, em nossa era digital, não precisamos mais de fogueiras para queimar livros: a verdade é distorcida, apagada ou reinventada em escala global, em um fenômeno conhecido como pós-verdade e pós-vergonha. O que são elas?

A pós-verdade refere-se a um cenário onde fatos objetivos têm menos influência na opinião pública do que apelos emocionais e crenças pessoais. Já a pós-vergonha vai além: é a normalização da mentira, da manipulação e da corrupção, sem qualquer constrangimento ou culpa. Esses conceitos, discutidos em obras como Os Engenheiros do Caos e Fake News e Inteligência Artificial, não são novos. Eles ecoam eventos históricos, como a propaganda nazista e a censura em regimes autoritários, mas ganharam uma nova dimensão com o advento da tecnologia e das redes sociais. Abro aspas à Giuliano Da Empoli:

Onde quer que seja, na Europa ou em outros continentes, o crescimento dos populismos tomou a forma de uma dança frenética que atropela e vira ao avesso todas as regras estabelecidas. Os defeitos e vícios dos lideres populistas se transformam, aos olhos dos eleitores, em qualidades. Sua inexperiência é a prova de que eles não pertencem ao circulo corrompido das elites. E sua incompetência é vista como garantia de autenticidade. – Giuliano Da Empoli. Os Engenheiros do Caos (p. 18). Vestígio.

Na obra de Bradbury, a queima de livros é um ato simbólico de controle. No mundo atual, a desinformação cumpre um papel semelhante. Plataformas digitais e algoritmos de inteligência artificial são usados para amplificar narrativas falsas, criar bolhas de realidade e manipular a opinião pública. A “fogueira faminta” pode ser vista como uma metáfora para o consumo voraz de fake news, que mancham o céu da verdade com tons de vermelho, amarelo e negro — cores que representam o caos, a confusão e a escuridão do desconhecimento.

Se em Capitalismo para Principiantes, vemos como o sistema transforma tudo em mercadoria – incluindo a informação, em Fahrenheit 451 os livros são perigosos porque promovem a reflexão, algo que não é lucrativo em uma sociedade voltada para o consumo passivo. Hoje, a verdade também é mercantilizada: notícias falsas geram engajamento, cliques e lucro, enquanto o jornalismo sério e investigativo luta para sobreviver. A pós-vergonha se alimenta desse ciclo, onde a ética é sacrificada em nome do interesse econômico.

Trailer de Democracia em Vertigem (2019).

Documentários como Democracia em Vertigem mostram como a fragilidade das instituições democráticas pode ser explorada por aqueles que buscam poder. O filme retrata a ascensão de narrativas manipulativas e a erosão da verdade, temas que ressoam fortemente com a distopia tratada em Fahrenheit 451. Já Ainda Estou Aqui nos lembra da importância da resistência e da resiliência humana. Assim como os personagens de Fahrenheit 451 que memorizam livros para preservar o conhecimento, precisamos encontrar maneiras de proteger a verdade em meio ao caos.

Para finalizar, nada melhor do que recorrer ao discurso de Charlie Chaplin em O Grande Ditador. Em um momento histórico marcado pelo autoritarismo e pela manipulação, Chaplin nos oferece uma mensagem de esperança e resistência:

“Nós pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo estará perdido.”

Assim como Chaplin, Bradbury nos alerta para os perigos de um mundo onde a verdade é suprimida e a humanidade é esquecida. Em tempos de pós-verdade e pós-vergonha, precisamos resgatar a capacidade de pensar criticamente, de questionar e de nos conectarmos com nossa humanidade. A verdade pode ser frágil, mas, como os livros memorizados em Fahrenheit 451, ela sobrevive naqueles que se recusam a se calar.


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