Hoje, em nossa era digital, não precisamos mais de fogueiras para queimar livros: a verdade é distorcida, apagada ou reinventada em escala global.
Na cabeça impassível, o capacete simbólico com o número 451 e, nos olhos, a chama laranja antecipando o que viria a seguir, ele acionou o acendedor e a casa saltou numa fogueira faminta que manchou de vermelho, amarelo e negro o céu do crepúsculo. – Ray Bradbury. Fahrenheit 451 (p. 14). Globo.
Em Fahrenheit 451, Ray Bradbury nos apresenta um mundo onde livros são queimados para suprimir o pensamento crítico e manter a população sob controle. A imagem do bombeiro Montag acionando o acendedor e reduzindo uma casa a cinzas é uma metáfora poderosa para a destruição do conhecimento e da verdade. Hoje, em nossa era digital, não precisamos mais de fogueiras para queimar livros: a verdade é distorcida, apagada ou reinventada em escala global, em um fenômeno conhecido como pós-verdade e pós-vergonha. O que são elas?
A pós-verdade refere-se a um cenário onde fatos objetivos têm menos influência na opinião pública do que apelos emocionais e crenças pessoais. Já a pós-vergonha vai além: é a normalização da mentira, da manipulação e da corrupção, sem qualquer constrangimento ou culpa. Esses conceitos, discutidos em obras como Os Engenheiros do Caos e Fake News e Inteligência Artificial, não são novos. Eles ecoam eventos históricos, como a propaganda nazista e a censura em regimes autoritários, mas ganharam uma nova dimensão com o advento da tecnologia e das redes sociais. Abro aspas à Giuliano Da Empoli:
Onde quer que seja, na Europa ou em outros continentes, o crescimento dos populismos tomou a forma de uma dança frenética que atropela e vira ao avesso todas as regras estabelecidas. Os defeitos e vícios dos lideres populistas se transformam, aos olhos dos eleitores, em qualidades. Sua inexperiência é a prova de que eles não pertencem ao circulo corrompido das elites. E sua incompetência é vista como garantia de autenticidade. – Giuliano Da Empoli. Os Engenheiros do Caos (p. 18). Vestígio.
Na obra de Bradbury, a queima de livros é um ato simbólico de controle. No mundo atual, a desinformação cumpre um papel semelhante. Plataformas digitais e algoritmos de inteligência artificial são usados para amplificar narrativas falsas, criar bolhas de realidade e manipular a opinião pública. A “fogueira faminta” pode ser vista como uma metáfora para o consumo voraz de fake news, que mancham o céu da verdade com tons de vermelho, amarelo e negro — cores que representam o caos, a confusão e a escuridão do desconhecimento.
Se em Capitalismo para Principiantes, vemos como o sistema transforma tudo em mercadoria – incluindo a informação, em Fahrenheit 451 os livros são perigosos porque promovem a reflexão, algo que não é lucrativo em uma sociedade voltada para o consumo passivo. Hoje, a verdade também é mercantilizada: notícias falsas geram engajamento, cliques e lucro, enquanto o jornalismo sério e investigativo luta para sobreviver. A pós-vergonha se alimenta desse ciclo, onde a ética é sacrificada em nome do interesse econômico.
Documentários como Democracia em Vertigem mostram como a fragilidade das instituições democráticas pode ser explorada por aqueles que buscam poder. O filme retrata a ascensão de narrativas manipulativas e a erosão da verdade, temas que ressoam fortemente com a distopia tratada em Fahrenheit 451. Já Ainda Estou Aqui nos lembra da importância da resistência e da resiliência humana. Assim como os personagens de Fahrenheit 451 que memorizam livros para preservar o conhecimento, precisamos encontrar maneiras de proteger a verdade em meio ao caos.
Para finalizar, nada melhor do que recorrer ao discurso de Charlie Chaplin em O Grande Ditador. Em um momento histórico marcado pelo autoritarismo e pela manipulação, Chaplin nos oferece uma mensagem de esperança e resistência:
“Nós pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo estará perdido.”
Assim como Chaplin, Bradbury nos alerta para os perigos de um mundo onde a verdade é suprimida e a humanidade é esquecida. Em tempos de pós-verdade e pós-vergonha, precisamos resgatar a capacidade de pensar criticamente, de questionar e de nos conectarmos com nossa humanidade. A verdade pode ser frágil, mas, como os livros memorizados em Fahrenheit 451, ela sobrevive naqueles que se recusam a se calar.


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