— Pera, como assim, Camila? Tia dos Bixos?
Essa história, na verdade, começa antes. Eu até já comentei um pedaço dela lá no meu Substack — aquele momento inicial, meio atordoado, das primeiras impressões chegando na USP. Mas toda boa experiência universitária tem continuação, e algumas coisas só começam a fazer sentido depois das primeiras semanas.
Pra começar, sempre foi um sonho estar por aqui.
A USP, pelo menos na minha cabeça, sempre teve algo de território quase mítico. Um lugar que a gente ouve falar desde cedo: os prédios enormes, os debates, as bibliotecas, as histórias de gente brilhante que passou por ali. Uma espécie de cidade paralela dentro de São Paulo, onde todo mundo parece saber exatamente o que está fazendo.
— Spoiler: ninguém sabe. Principalmente os bixos.
Todo começo de semestre traz esse fenômeno migratório curioso: grupos de estudantes andando pelo campus com a mesma expressão de quem entrou num aeroporto internacional sem falar o idioma local. Eles olham os prédios, olham o mapa, olham o celular, e depois olham de novo para os prédios — como se o Instituto de alguma coisa fosse, de propósito, se mover alguns metros só para confundir. Ah, eu estava nesse bolo.
E foi aí que percebi uma coisa.
Em algum momento entre procurar sala de aula e descobrir onde exatamente fica o bandejão mais próximo, eu virei… a tia dos bixos.
Não houve eleição, nem cerimônia de posse. Ninguém me entregou uma faixa escrita “orientadora informal de calouros”. Apenas aconteceu.
Um dia você está perdido.
No outro, alguém pergunta:
— Você sabe onde fica tal sala?
E você sabe.
Aí perguntam qual professor é mais tranquilo. Qual disciplina é melhor pegar primeiro. Qual prédio parece perto no mapa, mas na prática exige preparo físico e talvez um lanche intermediário.
E você responde.
De repente, percebe que já acumulou conhecimento suficiente para dar pequenas orientações de sobrevivência universitária. Nada muito profundo — mais uma espécie de guia informal do tipo:
“Se o mapa disser que é cinco minutos, considere quinze.”
“Sim, essa fila é mesmo do bandejão.”
“Não, você não é o único que ainda não entendeu aquele sistema.”
Ser a “tia” dos bixos não significa exatamente ser a mais velha ou mais experiente. Significa só ter dado alguns passos antes dentro do mesmo labirinto.
E talvez seja por isso que eu ache essa fase tão interessante de observar. Porque nós, os bixos, chegamos com uma mistura muito específica de sentimentos: medo, empolgação e aquela leve sensação de que a vida adulta começou oficialmente na semana passada.
Eles ainda dizem “nossa, a USP” com brilho no olhar.
E, curiosamente, esse brilho é meio contagiante.
Porque no meio da correria de prazos, leituras e salas difíceis de achar, os bixos acabam lembrando a gente de uma coisa simples: que, em algum momento, tudo aquilo também era completamente novo para nós.
Ser a “tia” deles, no fundo, é só isso.
Não é dar grandes conselhos nem fingir sabedoria acadêmica. É apenas estar alguns passos à frente no mesmo caminho — o suficiente para apontar a direção do próximo prédio… ou pelo menos da próxima fila do bandejão.
E talvez essa seja uma das pequenas ironias da vida universitária: quando finalmente começamos a entender onde ficam as coisas, alguém aparece perguntando o caminho.
E é assim que a gente descobre que, sem perceber, já deixou de ser bixo faz tempo.


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